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roteirista e diretor de cena

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Facebuchianas

Sou peixe fora d´água.
Mas Deus me livre bater a cabeça na parede de algum aquário.
Na dúvida de qual caminho seguir,
prefiro sempre a via marginal.
Adoro reticências...
Ponto final.
.................

O que acho mágico da vida é que sempre tem a possibilidade de um RESET.... 
Pelo menos enquanto nao houver um GAME OVER
.................

A régua que mede nossa existência não possui números. Tão pouco existe balança que 
pese sentimentos, emoções ou experiência. Porque a vida não é exata e nem ciência. 
A vida é. E isso basta
.
.................

Não conseguiam interromper aquele abraço, nem se lembravam por quanto tempo 
estavam ali naquele abraço.
O corpo dele era a pele dela.
Então sentiram falta de si e do outro.
E de tão juntos, agora era ele sem ela e ela já não tinha ele
..................


Amar é deixar partir,
é perder sem o choro da derrota, 
lamento que se repete...
quem ama sempre já ganhou.
Não importa se o primeiro tempo, o jogo inteiro ou campeonato...
quem ama não compete.
Afinal, o amor não é nenhum combate,
no amor sincero é sempre empate.
.................

Muitos me dizem "louco"
vários outros me acham sem coragem.
Sou bruto, sou amor, número e letra
Sou um enorme mosaico, completo de fragmentos....
Mas uma única coisa eu ofereço:
Me dou por inteiro.
Pena que só me vêem em metades.................

18/11/2013
Pai, hoje é seu aniversário. Continua sendo. Vai ser sempre. É a primeira vez que não 
te abraço nesta data. Não é por culpa minha nem sua. São coisas da vida.
Nesse tempo, pai, poucas coisas mudaram por aqui. Os Estados Unidos lançaram 
bombas em algum país e mais um foguete no espaço. Por aqui a gasolina subiu de 
preço, governo e oposição se acusam e não consigo entender porque as coisas não 
melhoram. Tudo parece igual, numa pálida monotonia. 
Mentira, pai. Está tudo diferente. 
É seu aniversário e não me preocupo se está precisando de calça ou camisa. Ou se 
prefere então algum vinho.
Há poucos dias nosso time foi campeão, e me lembrei que foi com você que eu 
aprendi a torcer em azul e branco. Lembro que na porta do estádio eu tinha medo de 
bombas e foguetes, mas quando você segurava minha mão miúda em sua mão de pai, 
o incerto se afastava e eu ainda criança me fazia gigante.
O seu neto também torce para o nosso time e ele se assustou com as bombas e 
foguetes, e então eu segurei sua mão miúda em minha mão de pai e prosseguimos, 
dois gigantes. Sem medo de bombas nem foguetes.
Queria muito sua mão de pai segurando a minha mão pequena agora. Mas são coisas 
da vida. Feliz aniversário, pai. E obrigado pela sua presença.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

É nóis

Sempre me pareceu estranho a história de duas pessoas que se tornam uma só carne.
Parece subtração.
Mas quando uma pessoa encontra outra, se torna dois, é soma.
A diferença acrescenta, transforma. Só o estranhamento gera reflexão. E aí passamos a ser  reflexo de nós mesmos e do outro. Eu sou eu e minha circunstância, como disse o filósofo José Ortega y Gasset.
Existem três pessoas numa relação: eu, o outro e o nós. É querer o nós que o eu e o outro se aproximam e se definem. 
É isso, é nóis...

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Amar se aprende amando

Que me perdoem meus ex-amores mas pronto mesmo para amar, a gente só está depois de muito engano.
Amar se aprende amando, já disse Drummond. São os erros que nos levam a fazer correto, a amar direito.
É através de discussões intermináveis que a gente aprende a linguagem silenciosa do amor. Só após muitas cobranças que se entende sobre a gratuidade. Porque amar é uma não espera.
É deixar a xícara sempre vazia para o outro completar com um café ou um chá. Ou qualquer outra coisa que ela queira oferecer. E nunca, mas nunca mesmo, se pode esquecer de encher o copo da companheira. Às vezes com whisky, outras com vinho. Mas o que realmente mata qualquer sede é um simples copo d’água. E é quando falta água que morre o amor.
Que me perdoem meus ex-amores por não ter esvaziado minha xícara nem completado todos os copos à minha frente.

Mas amar se aprende amando.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Por aquela janela

Ela admirava o por do sol por aquela janela. A vista deixava a sala mais viva.
Ele se desculpava enquanto se servia de mais café.
- Ai, minha menina, se eu pudesse voltar no tempo lhe pouparia essa dor...
Disse isso escondendo com os dedos as marcas de cola na xícara de porcelana.
Levantou-se e fechou as janelas que estavam às suas costas.
- É que esse tom amarelado das tardes frias envelhece as paredes dessa casa.

Ele recolhia as xícaras do café.
Ela ficou ali, sem entender por que ele lhe tirara até o por do sol 

Por aquela janela

Ela admirava o por do sol por aquela janela. A vista deixava a sala mais viva.
Ele se desculpava enquanto se servia de mais café.
- Ai, minha menina, se eu pudesse voltar no tempo lhe pouparia essa dor...
Disse isso escondendo com os dedos as marcas de cola na xícara de porcelana.
Levantou-se e fechou as janelas.
- É que esse tom amarelado das tardes frias envelheceu as paredes dessa casa.

Disse isso recolhendo as xícaras do café.
Ela ficou ali, sem entender por que ele lhe tirara até o por do sol .

terça-feira, 23 de abril de 2013

O amor é um grande circo


O amor é um grande circo

Senhoras e senhores, a vida é um picadeiro a céu aberto, sem lona. E amar, a mais completa arte circense.
Para viver um amor, precisamos domar nossos leões. E os do outro também. É andar na corda bamba do cotidiano, sem nada nas mãos. Embora seja válido algum adereço para dar um colorido ao espetáculo, como uma sombrinha, uma caixa de bombons, flores ou um bom vinho.
É achar graça de piadas conhecidas, se divertir inocente, sem nunca fazer o outro ou ser feito de palhaço.
É confiar no atirador de facas, que mesmo de olhos vendados reconhece seu corpo como extensão de suas próprias mãos. Pode não lhe ver, mas sabe que está ali presente. Pressente.
Ou o trapezista que salta no escuro rumo ao desconhecido. Mas se joga no ar por ter a certeza que o parceiro vai estar lá, lhe alcançando em pleno voo e estendendo os braços pra  lhe segurar.
Risco de queda? Sim. Mas na entrega não pode haver medo.
É tirar algo da cartola quando tudo parece igual. 
E é. 
Porém o que faz um circo diferente do outro é a qualidade dos artistas, assim como no amor.
Amor pode ter gosto de pipoca e algodão doce. Amor com frio na barriga, divertido e preciso. O amor é um grande circo.
- Hoje tem espetáculo?
- Tem, sim senhor!
Entao, nos amemos! Corramos mais riscos.
O amor é um grande circo.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Reencontros


 Reencontros

O bar estava cheio. Augusto foi até o balcão, pediu uma vodka e ficou ali por um instante.

-  Engraçado, seu rosto não me é estranho.
-  Ia te dizer o mesmo.
-  Sei que não é daqui, é a primeira vez que venho.
-  Eu também. Bom, já sabemos que não é daqui...

Augusto pediu licença e foi até um telefone público. Depois de ter deixado um recado na secretária eletrônica, voltou para o bar, tomar uma última dose.

            -  Estou tentando me lembrar quando foi que nos conhecemos.
            -  Deve ter sido há mais tempo, com certeza estamos muito
           diferentes.
            -  Passa rápido, não é?
            -  Nem fale.
            -  Esperando alguém?
            -  Na verdade, não sei se vai chegar.
            -  Estou na mesma situação.

O silêncio que seguia os breves diálogos revelava a falta de intimidade entre aqueles dois.

-  Preciso ir, estou esperando uma ligação.
-  Melhor andar depressa, parece que vai chover.
-  Moro aqui ao lado.
-  Que bom. Sabe que agora estou em dúvidas se realmente
a gente se 
conhece?          
-  Pode ser. Então, nesse caso... prazer, Augusto.
-  Coincidência, eu também.

Se despediram como dois velhos desconhecidos. Já em casa, Augusto viu que havia um recado em sua secretária eletrônica.

- Augusto, quanto tempo?! Preciso te rever. Vou te esperar no bar aqui ao lado, quem sabe nos reencontramos?

Antes de ir deitar-se,  parou em frente ao espelho de um móvel antigo no corredor. Teve a sensação de ter visto aquela pessoa durante o dia. Ou noite, não tinha certeza. Ouviu novamente a mensagem e foi dormir em seu quarto imenso e mofado.
Era tarde da noite e Augusto ainda não havia reconhecido a própria voz. 


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A vírgula


Sempre gostei de escrever, desde que fui alfabetizado, como já disse em uma crônica intitulada “compartilhamentos”.
Confesso que meus conhecimentos gramaticais são básicos, comuns a quem lê com alguma freqüência. Embora a leitura me dê muita satisfação, esse hábito não é nada que me faça um literato, intelectual ou conhecedor dos grandes autores e obras da literatura.  Leio de tudo.  De jornais de 25 centavos, panfletos que recebo no trânsito à revistinhas de sacanagem. Sem trocadilhos, sempre com enorme prazer. E livros, claro. Alguns com bom número de páginas que,  se não são tão interessantes assim, me dão a chance de fazer pose de alguém com certa intelectualidade. Realmente, uma imagem vale mais do que mil palavras. Isso eu  aprendi como redator publicitário.
Gosto de escrever desde que aprendi a formar palavras com as letras do alfabeto. É mágico perceber que essa organização  permite  aos leitores entender o pensamento daquele que escreve. Mas existem regras. Não é um vale-tudo.
Algumas regras eu infrinjo com consciência, ciente. Me valendo da licença poética para deixar o texto mais coloquial. Detesto formalidades. Outras, por pura ignorância. Revendo meus textos, alguns publicados aqui no blog, percebo que não sei muito bem quando usar a vírgula. Tirando a regra que não se deve separar o sujeito do verbo, uso por instinto. Várias vezes, depois do texto publicado neste espaço, vejo que está errada. Onde deveria, não está. Ou em hora e lugares que não precisa, lá está ela. 
Sempre tive um sentimento especial pelos menos validos. A vírgula não é um ponto, não é um acento, é algo que entra na história apenas para separar alguma coisa. É como um juiz. Não um Juiz de Direito que define  quem está certo, decide se a frase é uma exclamação ou  interrogação  e aí coloca um ponto final. É como um juiz de futebol. Coadjuvante, ou mesmo figurante, que pode interferir diretamente no resultado final. Desde que não altere o sentido da frase, não vejo problema da presença da vírgula. Pior é o ponto e vírgula. Não é um ponto. Mas também não é uma vírgula, é qualquer coisa entre o oito e o oitenta. Quem lê, entende, mas quem escreve, pelo menos no meu caso, não sabe muito bem porque usou. E ponto final.
Mas a continuidade que a vírgula permite me desperta profundo interesse, é como se as cosias não tivessem fim, afinal, o pensamento continua, mesmo que interrompido por alguma pontuação...  a idéia flui, voa, transcende o papel e, mesmo que a oração já esteja parecendo mais uma ladainha, interminável, dificultando a interpretação por parte dos leitores, o escritor, em transe, expõe seus pensamentos desconexos, ou apenas desorganizados, porque o cérebro é mais rápido que as mãos no teclado e ele já não se lembra porque tudo começou, assim como eu nesse momento, mas tenho só uma certeza:
Não mudo uma vírgula do meu pensamento. E ponto. Embora fosse melhor uma vírgula... 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Patrícia

Desde novinha já sabia o que queria. Bicho solto, embora fosse fêmea, sempre chamou a atenção, não só pela beleza, mas pela simpatia e desenvoltura.
Entra várias atividades, algumas em número desconsiderável,  as amigas do colégio particular pensavam em estudar arqueologia ou veterinária. Embora a carreira de ginasta olímpica exercesse certo fascínio.
Ela não. Sempre quis ser puta. Puta mesmo. O que é bem diferente de garota de programa ou alpinista social. Mesmo porque não havia por onde ascender e nem tal necessidade.
A fazenda do seu pai, além de soja e café, tinha 200 alqueires só de pasto. Modesto, coronel José Antônio dizia que eram umas trezentas cabeças. Na verdade, nunca terminou de contar.
A confirmação do desejo de Patrícia, ou quem sabe vocação,  veio quando ela completou 16 anos. Seus pais viajaram e a deixaram sob os cuidados de dona Tiana. Zelosa, desde quando Patrícia nasceu cuidou da menina como se fosse sua.
Mas Patrícia não era de ninguém.
E numa terça feira, ao invés de ir à aula, foi para a beira da estrada se aventurar em alguma boléia de caminhão.
Um prestativo caminhoneiro e seu ajudante altruísta pararam a carreta. Patrícia entrou assim que a porta se abriu e sentou-se na parte de trás da cabine. Fogosamente.
Não existe razão nenhuma para se duvidar da boa fé daqueles dois, até porque não há santo que resistiria quando a garota tirou o moleton e a blusa transparente do uniforme revelou dois seios lindos, empinados e pontudos.
Thiago, o ajudante, pouco mais velho do que a aprendiz de sirigaita, partiu pra cima dela. Mas foi surpreendido de tal forma que, sem saber como, antes que alcançasse aqueles peitinhos, já estava de calça aberta e membro pra fora.
Aldair,  o motorista,  até queria prestar atenção na estrada, mas era impossível tirar os olhos do retrovisor. Estacionou no primeiro posta de gasolina, fechou as cortinas e foi receber seu prêmio por tão generosa carona.
Dormiam satisfeitos, motorista e ajudante, quando Patrícia saiu do caminhão.
Não foi difícil conseguir outra cartona para qualquer lugar.
Passado quase 10 anos daquela terça feira, não se sabe de Patrícia.
Na fazenda do coronel, o gado foi morrendo, deu praga na plantação, e José Antônio já não é efusivamente convidado para jantares, bingos e outros eventos sociais.
Quem não a conhecia direito diz que Patrícia se casou com um dono de caminhão e mora em Roraima. Os outros suspeitam que até hoje ela viva de boléia em boléia. Sai de algum lugar para um lugar qualquer. E depois o contrário.
Talvez ela até quisesse ser de um homem só. E apenas enquanto seu amor não surgisse seria de todos. Era de todo mundo mas não era de qualquer um. Só quando algum felizardo lhe agradava é que se entregava por inteira. Mas fazia felizes até aqueles que não tivessem tanta sorte. Para ela o gozo nunca foi o final,  era a essência.
Toda noite, quando fecha os olhos dorme feliz por ter  cumprido a sua sina.
Desde novinha já sabia o que queria.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A filha do Fonseca

Conhecia muitos lugares, mas não o Jequitinhonha. E isto lhe intrigava. Por diversão do acaso, nunca concluiu essa viagem diversas vezes programada.
Acordar com febre alta naquela sexta feira foi só mais uma brincadeira de mau gosto.
Como não iria, seu irmão levou emprestada a câmera fotográfica e alguns filmes ASA 80, porque o sol lá bate forte.
Quando a vida era analógica, havia uma espera sem angústia. Tudo era um download sem barra de status. O tempo simplesmente passava. E quando a gente se assustava, o feijão já estava cozido, a água fervida e, entre uma prosa e um gole de café ou cachaça, era hora de colocar mais lenha no fogão.
Aquele instante eternizado na fotografia durante um tempo permanecia em segredo. Só o fotógrafo sabia o que seria revelado. E se o filme não velasse e se a exposição estivesse correta, depois de alguns dias as outras pessoas poderiam ver o que só ele viu. Diferente dos dias atuais, em que assim que se aperta o disparador acontece uma disparada para trás do visor das câmeras digitais. Achou engraçado fotografia digital... para ele, fotografia sempre foi visual.
Mexendo na velha caixa de papelão, entre negativos e fotos, se lembrou desta viagem frustrada. Se fosse ele o fotógrafo saberia o local exato... mas só poderia ser no Jequitinhonha. Onde nunca esteve. E com certeza era  na fazenda dos Fonseca. Reza a lenda que tudo que há de mais belo nascia ali, na fazenda dos Fonseca. O braço de rio, o pé de pequi. As moças.
Ah, como gosta de brincar esse tal de destino... Há alguns dias recebeu por engano uma correspondência para uma vizinha, Débora Fonseca. Ficou admirado com sua beleza quando foi lhe entregar a carta. Não se enganaria... aquelas curvas da fotografia em contra luz eram dela. Da filha do Fonseca.
Como a natureza era pródiga na fazenda dos Fonseca...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Feriado

O feriado

Foram quatro longos anos de espera e, finalmente, Alfredo poderia desfrutar de merecidas férias com a família. Sim, ele  considerava aqueles 4 dias de feriado prolongado uma oportunidade rara de descanso e lazer, o que, para ele, seriam como férias.
Alfredo dispensou ver fotos do imóvel, as palavras do corretor foram suficientes para ter certeza que estava alugando a melhor casa de praia da região. Madalena, sua esposa, esboçou certa desconfiança principalmente pelo preço cobrado, mas a euforia do Alfredo ao telefone com João Augusto foi contagiante e aceitou o argumento de que oportunidades são como cavalo selado. Talvez tenha sido apenas um consentimento. Se ao menos o cavalo fosse dado... pensava ela.

Ao saber que a casa tinha 3 quartos, João Augusto sugeriu que convidassem Bernarrrdete e Adalberto... Bernarrrdete... João Augusto nunca conseguia dizer Bernadete, o que rendia algumas brincadeiras entre os casais.

Convite feito, convite aceito. E assim partiram os três casais e mais os filhos rumo ao Espírito Santo.Madalena estranhou  quando Alfredo estacionou o carro em frente à Peixaria do Zé Gordo e soltou um “chegamos” com certo alívio e alguma ansiedade em desfrutar seus 4 dias de intenso descanso.
- Isso não está me cheirando bem, ela pensou alto.
- Que maravilha o cheiro de mar!!! Exclamou Alfredo enquanto descia do carro
- Isso aqui é um mangue! Respondeu Bernadete visivelmente enjoada pela viagem.- Não estou vendo a praia! Disse Maristela, esposa de João Augusto, lembrando as palavras supostamente ditas pelo corretor.- É só subir na laje, garantiu Zé Gordo, o dono da peixaria e fiel guadador das chaves do imóvel.
Foi o suficiente para que Bernadete descesse do carro com Luisinho e Beatriz. Ela gritava que já estava fazendo o caminho de volta. Tudo piorou quando João Augusto quis colocar panos quentes:

- Calma, Bernarrrrdete...
- Bernarrrrdete é a puta que te pariu! É Bernadete, cacete.
Foi nessa hora que a pequena Beatriz achou por bem parar de chorar, e com os olhos assustados perguntou pra mãe se podiam levar a bóia de pneu de caminhão junto com eles.
-Leva essa porra, o caralho,  e tudo que você quiser. Aqui eu não fico.

Havia um certo silêncio na rua. Zé Gordo sem saber se entregava as chaves para Alfredo que não sabia se ía atrás de Bernadete ou se tentava acalmar Madalena, que a essas alturas já descia do carro com Alfredinho. Assim, de um lado da rua estavam as 3 esposas com as crianças e do outro,  maridos em companhia do Zé Gordo. Claro que  pescadores, transeuntes e funcionários da peixaria acompanhavam tudo de perto e até já tinham opinião sobre o episódio.
Algumas mulheres juravam que Bernadete havia flagrado Adalberto ao celular marcando encontro  com a amante. Por isso  estava nervosa daquele jeito. Alguns mais vividos diziam que as mulheres de antigamente não tinham essa história de TPM e por isso os casamentos duravam mais.

Naquela noite teve muita cachaça, cerveja e camarão. O camarão foi cortesia do Zé Gordo.
Ele se juntou ao trio depois que sua esposa passara o trinco na porta.
É que o Abadias ligara  perguntando pelo Zé, que andava sumido. 
Bem mais cedo, Zé Gordo disse que iria tomar uma cerveja com o Abadias.


Alfredo não se lembrava da última vez que havia tido uma noite tão agradável. Fato é que se divertiram horrores. Coisa que só os homens conseguem entender como um porre pode ser extremamente prazeroso. E útil. Acabaram misturando o domingo com a segunda e só retornaram na terça feira. Felizes.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Agora

O medo, sem pedir licença, tomou conta de mim. Não ofereci resistência, preces nem clemência.
Ausente, abstive. E entre perdas e quebras, me senti escuro e tive frio.
Não teve sol durante o dia. Nem música. Nada, nada.
Nada além de tudo repleto de vazio.
Transbordando medo e pingando esperança.
O sino, como se pedisse calma, anunciava meia hora partida.
Nem as horas eram mais inteiras.
Tudo pedra, pau e ferro.
Só eu, e eu só.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

20 anos ainda

20 anos ainda


Percebeu que ainda era uma mulher bonita quando um defeito na porta do carro lhe obrigou a sair pelo lado do carona. Nessa transposição, se olhou no espelho retrovisor e entendeu que as marcas do tempo impressas em seu rosto não lhe deixavam mais velha, faziam dela uma mulher mais sábia.
Talvez se ainda tivesse 20 anos um defeito na porta seria um aborrecimento, e não apenas um incômodo.
Sempre preferiu ser notada pela inteligência, embora sorrisse por dentro quando alguém fixava os olhos em alguma parte do seu corpo.
Dentro do supermercado decidiu escolher primeiro o vinho, depois pensaria qual prato iria acompanhar aquela ceia baquiana. Precisava de algum excesso naquela noite.
Enquanto segurava um noir e um merlot, viu um jovem ao seu lado. Um rapaz bonito, corpo definido, mas sem exageros. Reparou que já reparava demais aquele moço quando ele lhe perguntou alguma coisa.
Não sabe dizer por quanto tempo ficou em silêncio, mas achou uma delícia aquela ausência. De repente, soltou uma gargalhada. Constrangida, pediu desculpas sem poder revelar que havia achado graça de seu pensamento tosco; é que havia decidido como seria a comida: peru.
Ele, muito simpático, disse que não entendia muito de vinho, já que não bebia, mas gostaria de presentear uma amiga. Sabia apenas que tinto e seco tinha um ar de sofisticação. Na Europa, consumia-se muito. Aprendeu quando viajou para um turnê. Era bailarino.
Ela sempre ignorou estereótipos por razões assim. Suas pernas tremiam diante daquele homem. Procurou uma garrafa qualquer em uma prateleira que pudesse ficar mais perto daquele corpo, e com discrição, promover algum contato. Sentiu sua pele máscula, sentiu calor, frio, sensações que se misturavam. Sugeriu um cabernet. Desejou ser daquele homem como nunca havia sido de ninguém. Já não controlava seus pensamentos e ficou ali, como se em êxtase. 
Quando voltou a si, viu que seu homem já tinha ido embora. Sem possibilidades de flores, telefonemas ou uma caixa de bombom.
Talvez, se ainda tivesse 20 anos aquela situação não lhe atormentaria tanto.


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Compartilhamentos

Compartilhar. Sempre achei bonita essa palavra. Embora também me soe  redundante, meio pleonasmo. É como subir pra cima, descer lá embaixo ou minha mulher é brava... Ops... perdão, amor...  não me entenda mal, não falei de você especificamente... você não é brava, é só um pouco geniosa... mas isso é natural... coisa de mulher... e... bem, deixemos isso de lado, o leite já derramou e voltemos ao nosso assunto.
Partilhar é sempre com... inevitável. E compartilhamento em tempos digitais ganhou proporções geométricas. Algo que alguém posta em seu perfil é visto por seus amigos, alguns compartilham e mais pessoas vêem esse algo, que é compartilhado  por outras pessoas e mais e mais pessoas vêem,  outros  compartilham e  mais e mais e mais pessoas vêem, e mais e mais e mais e mais e mais...
Peço licença e faço uma interrupção, mais à frente voltarei a este assunto e compartilharei algumas coisas.
Desde que fui alfabetizado gosto de escrever. Com 8 ou 9 anos eu já tinha um caderninho de poesias. Tudo meio batatinha quando nasce,  mas eu já tinha uma leitora fiel: minha mãe.
Na adolescência percebi que alguns versos originais poderiam causar algum efeito na relação com o sexo oposto. Na verdade, nem precisavam ser tão  originais. Devo confessar que, por diversas vezes, os mesmos versos atenderam diferentes musas. Com o devido cuidado de me certificar de que elas não se conheciam, claro. Poeta preguiçoso mas não ingênuo.
Aí comecei a sentir, mais do que prazer, necessidade em escrever.
Mário Quintana disse uma vez que todo escritor acredita na valia do que escreve. Se mostra é por vaidade, se não mostra é por vaidade também. E assim, meus escritos, idéias e pensamentos ficaram guardados em gavetas espalhadas por esse mundo.
Em outro momento,  li uma frase de outro escritor, que não me lembro o nome, que não são os escritores que escolhem as idéias, são as idéias que escolhem os escritores. Pois bem, em setembro de 2011, resolvi criar um blog para divulgar meus trabalhos em vídeo e também essas idéias que, na falta de melhor sorte ou opção, por ventura me escolheram.
Uma única vez, divulguei por e-mail a criação deste espaço e desde então publico os links no facebook. Amigos generosos têm (não consigo me habituar às novas regras ortográficas e a falta de acento para mim sempre tem cara de erro), mas graciosos amigos tem compartilhado links, curtido ou apenas lido os textos. E hoje, 7 meses depois,  o blog teve 1.000 acessos. Não sei se é tão expressivo assim, mas para mim é. E muito. Inclusive pelo fato de eu ter 3 seguidores. O que me surpreende mais ainda, já que sempre achei mais provável de  ser perseguido. Pela polícia ou por ladrão. E confesso que só visitei alguns lugares porque tinha a certeza absoluta de não estar sendo seguido. Mas essa nuvem de fumaça sobre o meu passado já se dissipou, e agradeço a esses 3 heróis. E a todos que contribuíram para que este blog atingisse esse número de acesso. O que me deixou muito feliz. E vaidoso, por que não? E todo esse texto é apenas para isso: compartilhar essa alegria. Já que tudo isso só foi possível com a participação de outras pessoas, nada mais justo que compartilhemos esse momento. E viva a partilha.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Destinos

Destinos

  
O padre que celebrou o batizado fez uma pregação entusiasmada. Disse que o nome da criança fora inspiração do Espírito Santo,  criador e criação unidos em uma só criatura: Deusimar.
Agora estava ali sentado à beira do cais, esperando a hora de partir. Acendeu o último cigarro barato comprado no porto de Singapura. Tentava entender por que cargas d´água era um marinheiro. O balanço do barco lhe dava náuseas, detestava o cheiro de peixe e o ar salgado que vinha do mar. Ao atravessar a rua para comprar cigarros, um caminhão interrompeu seus pensamentos.
Durante o velório, somente ele e sua esposa não choraram.
Ele, certamente, por não saber que suas cinzas seriam jogadas no mar.

SANTA EDIT

SANTA EDIT



Desde o final dos anos 70, quando o visionário Bill Gates imprimiu sua cruzada pelo mundo, Santa Edit tem revelado seu poder, protegendo editores e salvando a pele de roteiristas e diretores.
A Santa foi canonizada por seus milagres em produções de baixo orçamento, ainda no tempo das moviolas. Mas é também devotada pela sua fé missionária, disseminando o mandamento que
CTRL  S SALVA!!!

*Este texto foi produzido em agradecimento por graça alcançada

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O de sempre, por favor


Não sei precisar o mês, nem o ano, mas com certeza, era um domingo. E pela temperatura amena devia ser inverno. Antigamente as características climáticas eram mais definidas.
E todos os domingos, íamos cedo para o clube, exceto naqueles dias amanhecidos sob temporal. Ou na verdade, presentes que inundavam minha mente de alegria com a possibilidade de fazer todas aquelas coisas que meus pais diziam que eu não estava  fazendo nada.
Pois bem, voltemos àquele domingo de um certo mês de um ano qualquer de temperatura um pouco fria.
Voltávamos do clube e a continuidade de nosso rito familiar das manhãs de domingo era que, à tarde, fôssemos ao Restaurante do Cacá. E em função dos mesmos processos de hábitos e costumes, comíamos, em uma rotina continuamente igual e sem variação, uma Lasanha e um Filé à Parmeggiana.
Meu pai pagava a conta e dizia para o garçom que a lasanha estava melhor do que a da semana passada. Eu nunca tinha percebido variação alguma no gosto da Lasanha. E nem do Filé.
Mas me lembro sempre do  gosto bom daqueles dias. Por isso, o de sempre, por favor.
            

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Desfalecida, porém de véu e grinalda

Desfalecida, porém de véu e grinalda.

Foram quatro longos anos de espera, e quando acordou, se é que dormiu, mal acreditava que tão esperado dia havia chegado. Em seus 27 anos de vida, nunca vira uma noite tão demorada.
Eram 6:30, e Maria das Dores, com sua ansiedade peculiar, acordara a casa inteira e mais a vizinhança, no intuito de que os irmãos, pai, mãe, tia, vizinhos e quem mais quisesse colaborar a transformassem em uma princesa. Trabalho que iria requerer todo tipo de ajuda e longas horas. Desligou seu celular e pediu para que todos fizessem o mesmo, para que ninguém se distraísse.
O relógio da sala marcava 7:45 e das Dores, como era mais conhecida, não havia terminado o banho.
- Anda logo, minha filha, disse a mãe zelosa, daqui a pouco você tomar um banho à dois...
- Hum, ela deve estar achando que banheiro é sauna de emagrecimento! Cochichou dona Cinésia com dona Ametiza, uma outra vizinha. Detalhe que se não fosse para fazerem fofoca não existiria razão para estarem presentes.
Acabado o banho, começou a correria. Parecia uma  operação delicada, uma cirurgia de alto risco.
- Secador de cabelo! Pedia alguém
- Escova, escova! Gritava outro.
- Escova não, um pente!
- Cadê o esmalte vermelho, heim?
- Vermelho não, burra. Noiva virgem de esmalte vermelho?
Durante os quatro últimos anos, das Dores economizara todo e qualquer centavo em prol do enxoval, vestido de noiva, convite com caligrafia em alto relevo, recepção, hospedagem para a noite de núpcias, etc. As vizinhas, já senhoras e solteironas, claro, acharam um absurdo a quantia gasta. Bem, não sabemos se foi sem querer, ou por inveja, ciúme, ou seja lá o quê, mas D. Cinésia desfiara o véu da noiva. Dona Ametiza se encarregara das meias. Nova correria.
- Agulha!
- Ô, meu Deus, a linha estava aqui!
- Vai rasgar, vai rasgar!
- Assim não!
- Iiiiih!!!
- Só na máquina de costura!
O suficiente para a noiva entrar em prantos e derreter a maquiagem. E não bastavam manicures, pedicures, cabeleireiras, maquiadoras, costureiras, agora, psicólogas. Mal deram conta que já estava anoitecendo e o relógio à vista de todos ainda  marcava 17:13.
- Calma, filhinha. Ainda tem tempo de sobra! Até a hora do casamento faltam mais de 2 horas.
Com bastante tranqüilidade,  terminaram o trabalho e,  justiça seja feita, fizeram uma transformação. Nunca fora bonita, embora também não fosse feia, mas naquela noite estava linda.

- O noivo vai achar que está casando com outra! Comentou  Cinésia.
- Gente!!! O relógio está parado!!!!
Outra correria. A noiva entrara em choque ao saber que já eram 21:00.
Dona Nadir, sempre zelosa, correu para o telefone:
- Ai, meu Deus, não sei o telefone da igreja, ai... e nessa correria não paguei a conta, o telefone tá cortado...
Providencialmente, surgiram um catálogo telefônico e um celular.
- Rua Ortência, Rua Ortência... Não tem essa rua não...
- É Hortência, ô burra, com agá.
- Eme, jota, agá. Aqui, achei. 383-3838.
- Padre, minha filha está atrasada, é só mais quinze minut...
- ...
- Não, já podem começar a musiquinha: Tam tam ram tam t....
- ...
- Quê?! Foram embora?

Das dores permanecia estática, imóvel, estirada no sofá. Os olhos não mexiam. Antes de desfalecer, ouviu Dona Cinésia dizer:
- Falei prá fazer uma coisinha mais simples, né? Casamento agora é uma patuscada... dá nisso... perdeu o noivo. Mas será que a gente pode buscar os salgadinhos da festa?

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A tempestade

A tempestade



Aos 22 anos já tinha ido a lugares que agentes de turismo, caminhoneiros e até o google maps desconheciam. Muitas vezes depois de longas caminhadas e providenciais caronas. Ou vice versa, longas caronas e caminhadas providenciais. Outras tantas pela simpatia mesmo. Muitos que  pediam uma indicação de onde passar as férias, feriado ou uma noite de rei acabavam por levar  um cicerone na bagagem. Vale dizer que uma noite de rei não era, necessariamente, uma noite de sofisticação e conforto. Embora tenham havido várias.
Nunca lhe faltou prazer.  Dormiu entre coxas em camas com lençóis de seda e foi feliz amando embaixo de chita.

Quando tinha 5 anos,  durante o velório do avô, teve um primeiro contato com o fim das coisas. Talvez por ser muito novo, nunca acreditou que as coisas tivessem fim.
Uma estrada começa em algum lugar e termina em outro ponto distante, certo? Mentira.
Andar em linha reta nunca foi interessante. Sempre preferiu as curvas e desvios. Jamais atalhos. Pra quem viveu assim, a beleza do caminho é mais atraente do que o destino.

A percepção de que estava ficando velho foi na sala de espera do consultório médico. Todas as pessoas ali tinham caras de doentes ou apresentavam sinais visíveis de sofrimento.
Sentiu muito medo de que as outras pessoas também o vissem assim. Enquanto tirava da mochila a carteirinha do plano de saúde, deixou cair uma fotografia do aniversário de 2 anos do seu filho.

Um relâmpago assustou o homem de 38 anos, e apagou as luzes da clínica. Sentiu alívio, era uma oportunidade para escapar da sentença que lhe assombrava. Descendo as escadas, ouviu um trovão anunciar a tempestade próxima. O céu estava escuro.
Caminhou no sentido contrário que viera, fazendo o caminho de volta. Talvez lá tivesse céu azul.

Queria se  distanciar do ponto em que se encontrava. Viu um casal que dividia um guarda chuva, e descobriu que o nome dele era Vanderlei, ao ouvir a companheira lhe oferecer um pão de queijo.
Com medo da chuva ficar mais forte, apertou o passo.
Sozinho pela rua, entendeu que as pessoas não caminhavam enfrentando a chuva.
Apenas procuravam um lugar seguro.

sábado, 15 de outubro de 2011

Amanda

Amanda

Interessante o acaso. Nos conhecemos em uma esquina, enquanto observávamos uma discussão de trânsito. Íamos por direções opostas, mas aquele pouco tempo de conversa foi suficiente para que soubesse que poucas  vezes  tinha visto tamanha beleza... e  simpatia... e inteligência... e delicadeza... e... meus pensamentos foram subitamente interrompidos.
- Vou seguir. Prazer, Amanda.
- Amando. Respondi sem pensar, já nesse instante escondendo meu crachá funcional para que não lesse Antônio.
Ela riu, virou-se e começou a andar.
Amanda seguia enquanto eu segui amando.